Mais que suficiente

Enfim tinha chegado lá. Era o grande momento da sua vida. Ali, na frente da platéia, na televisão, do alto dos seus seis anos de idade, no Porta dos Desesperados. Que tensão, minha gente. Que pressão. Já tinha se imaginado ali diversas vezes, mas parecia ter esquecido das câmeras. Malditas câmeras. Já havia contado umas três, enormes. E o problema não era ser filmado, era ser transmitido. Tinha certeza de que seus amigos estavam em casa assistindo. Todos os seus amigos. Os da rua. Os da escola. Podiam estar torcendo. Podiam até estar com inveja. Fosse o que fosse, se sentia observado por todos.

Entra o apresentador. Aos berros. Você está desesperado? Sim! E de fato estava. Ali, à sua frente, as três portas. Em uma porta, o macaco, a chacota, a vergonha, o fracasso. Na outra, o nada, o monótono, o medíocre. E finalmente a porta premiada, a montanha de brinquedos, o sucesso e a admiração. Tinha que fazer a escolha certa. Só tinha uma chance e jamais poderia gastá-la com um macaco que sequer era de verdade. Tinha só seis anos, mas bem sabia que não passava de um homem fantasiado, o que deixava a idéia do fracasso ainda mais ridícula.

Mentalizou a porta premiada. Pensou com todo coração na porta premiada. Quis com tanta força abrir a porta premiada que, no meio de tanta concentração, lembrou dos brinquedos que tinha em casa. Velhos, mas vá, ainda se podia brincar com eles. Alguns estavam quebrados, mas poxa, assim pelo menos não tinha que emprestá-los. E ainda não tinha bicicleta, mas também há lado bom: assim não se machucava caindo. Ter brinquedos velhos começou a parecer melhor que estar ali sofrendo tanto, e achou que não precisava realmente daquilo tudo. Sentiu que era difícil demais suportar tanta expectativa – dos outros e de si – e aquela porta maravilhosa acabou virando apenas uma caixa idiota cheia de brinquedos desnecessários. E assim, seus seis anos se tornaram sessenta e ele decidiu desistir. Eu de-sis-to. Não quero abrir nenhuma porta. E não era medo da decepção. Era medo de não saber o que estava por vir.

O apresentador improvisou qualquer coisa. A platéia calou. As câmeras viraram para outro canto e ele, enfim, respirou. Poderia voltar pra casa, pro conforto do que já tinha conquistado até ali, pra segurança do que já conhecia bem. Uma pena, disseram as pessoas. Pena mesmo. Ele sabia o tempo todo que os brinquedos estavam na porta número 3. Havia visto os funcionários guardando os prêmios antes do jogo. Tudo que queria estava bem na sua frente, mas com tanta tensão ele não lembrou que sabia, que sempre soube o que fazer. Achou por bem escolher o conforto. Ah, o conforto. Os amigos todos criticaram, que conforto o quê, mas vai saber? Para uns, a graça da vida está em sobreviver entre um acaso e outro, mas pra outros esse conforto já é sucesso mais que suficiente.

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9 pensamentos sobre “Mais que suficiente

  1. No primeiro mapa astral que fiz o astrólogo olhou pra mim e disse: “Com medo da vaia, você não tenta o aplauso.” E lá se vão uns 20 anos… Até hoje tenho isso na cabeça e tento arriscar o aplauso. Não é fácil, a gente sempre acaba optando pelo conforto, pela segurança. Quero abrir mais portas na vida, pois algumas se fecham e não tem mais como a gente entrar…

  2. Situação de conforto? Tamu fora!! É seguro, mas sem graaaaaçaaaaa!!!! Arriscar sempre!Teimar sempre!Ganhar às vezes, perder às vezes!Mamãe tá orgulhooosaaa!!

  3. Me-identifiquei-me.

    Talvez ele nunca tivera apenas 6 anos. Todo mundo esperava dele que quisesse tantos brinquedos, e ele, acreditou. Mas só até o momento em que ele se deparou com tantas portas e pensou:

    Depois destas, quantas mais?

    “I’m just looking, i’m not buying.”

    BJS Keep’on writing! :)

  4. Baseado em fatos rais?? Pobre criança grande!! Mas sábia! Pois é amiga….a gente cresceu e vive ainda tentando abrir a porta com os brinquedos…tô cansando. A baleia é mais segura que um grande navio? Te falar que eu acho que às vezes é! Dá vontade de me manter na baleia até o fim da vida, até subir pro cé-é-é-u.

  5. porta dos desesperados,porta da esperança…
    ficamos sempre tentados a saber se o sonho se realiza do outro lado, ou se alguém o realiza por nós. fico aqui pensando que isso também não deixa de ser uma situaçào confortável… o risco ( e o medo) é fracassar diante da plateia.

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