Alta definição

Sabe por que eu não lavei o copo depois que tomei o leite? Porque eu não quis. E sabe por que eu sequer enchi o copo de água para que o chocolate não endurecesse? Porque, no fundo, eu queria mais é que endurecesse mesmo. Nada pessoal. Agora, espera amanhã. A má vontade some e lá estou eu, fazendo faxina sem reclamar, cantando Dancing with myself. Inconstância.

Eu sou aquela pessoa que vai em bufê caro, mas come que nem um pinto, e o almoço sai baratinho. Sou a que acha que boi taí pra ser traçado mesmo; e que quem nunca comeu carne na vida é o que é por nunca ter sentido gostinho de sangue na boca.

Eu torço pra Eslovênia na Copa. Aí ela é eliminada, e eu torço pela Eslováquia. Vamos todos morrer mesmo.

Eu não sou gata. Eu não sou gostosa. Eu, de mãos dadas com Paulo Mendes Campos, sou é brotinho. Joga no Google. Detesto o verão carioca, mas não trocaria o Rio por nenhum outro lugar no Brasil. No Brasil. Morro de medo de mar, mas me jogo das alturas como quem pula de um degrau.

Eu vejo o lado bom de tudo. Sempre. Vejo o lado bom de achar uma barata no prato de comida. Vejo o lado bom de ser cagado por um pombo minutos antes de achar uma barata no prato de comida. Eu falo nojeira com a maior naturalidade.

Eu não dou a menor importância a carreira. Faço meus deveres bem e com carinho, mas bom pra mim mesmo é ganhar meu dinheiro e viver minha vida, que é muito mais interessante que qualquer grand prix fantasma. E acho que chamar esses anúncios de fantasmas é uma ofensa aos fantasmas, galera tão iluminada. Nunca tive problema em escolher minha profissão, porque jamais imaginei que me limitaria a ela por toda a vida. Daí a tranquilidade. Vivo em ciclos. Já fui noiva, estagiária, circense, livreira, estrangeira e publicitária, redatora, editora. Pobre de quem escolhe uma coisa só e queima a vida todinha na mediocridade.

Eu acredito em Buda, Shiva, Chico Xavier e extraterrestres. Tudo junto. Sério. Acredito na minha Lua em Peixes. Rezo e recito mantras. Eu acredito no meu pai, que além de ter me feito ouvir Black Sabbath aos oito anos, me ensinou a verdade aos poucos pra que eu não me espantasse. Eu jamais me espantei. Acredito em 2012, em energia, em positive vibrations, yeah. Acredito na luz. Acredito na justiça universal, no karma e no esforço de fazer tudo vibrar a seu favor.

Não pego sacolinha plástica no mercado. Não tenho carro: ando a pé, vou de bike. Tiro todos os eletrodomésticos da tomada, e aproveito a água que pinga do tanque para regar as plantas, mas me dá uma ducha quente que toda essa ecochatice escoa como água morna ralo abaixo.

Eu digo que vou sair pra dançar e o mundo vem atrás. Eu começo a dançar e o mundo todo some. No meio de um papo propositalmente idiota, digo naturalmente que não se diz “fluído”, e sim “fluido”, porque se fosse “fluído”, teria acento no i, já que a segunda vogal do hiato é acentuada. Falam do Renault Clio, e eu digo que Clio é sogra de Eurídice, sendo que já seria estranho o suficiente dizer que é, simplesmente, a mãe do Orfeu. E dou outro gole como se só tivesse chamado alguém de viado, normalíssimo.

Eu não sou gay porque sou mulher. Ai, Juliana, mulher não pode ser gay? Pode, mas não precisa. Mulher não tem lado A ou lado B. Mulher é o amor em pessoa, amor dirigido a tudo e todos. Eu não preciso de rótulo. Já me apaixonei um milhão de vezes, mas só uma vez eu acreditei e fui em frente, sem o menor arrependimento. Acredito no amor por toda a vida. Acredito no meu amor por toda a vida.

Eu choro com Luciano Huck. Eu choro com Jornal Nacional. Eu choro com vídeo no Youtube. Minha mãe me ensinou que, sem chorar, a gente explode. Que vida sem emoção realmente não presta pra nada. Pego gato doente na rua. Já peguei uma pomba com a asa quebrada, levei ao veterinário e dei remédio, mesmo com todo mundo me rejeitando com um asco que dava pena. Asco tenho eu de quem vê um animal sofrendo e passa reto achando bem-feito.

Tenho segredos que jamais contarei a alguém. Segredos que eu mesma escondi de mim e só fui lembrar depois de grávida. Sei de coisas da vida que, ainda que quisesse contar, não saberia como. E ainda que soubesse, não me entenderiam. Me olhariam cruzado, essa menina tá louca, e dariam de ombros.

Eu sou Agrado, Carmen, Louise Brooks, Don Quijote, Madre del Rey de España y Nobia Cadáber de la Reina del Portuñol. Eu tenho um tremendo orgulho de ter ido longe demais, de ter errado feio, de ter tomado pés na bunda, de ter sido inocente e vacilado quando não deveria, de ter amarelado. Não caibo em mim de orgulho de ter tido coragem de assumir tudo que sou, todas que sou, e eu nem sei direito quem sou, mas olha. Ah, minha gente. Como eu me amo.

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40 pensamentos sobre “Alta definição

  1. ju como vc escreve bem. E eu, que te conheço bem, amei ler o que vc é.Disse tudo.

    É gata sim, mas brotinho em essência. Minha escritora!
    beijos de la Nobia Cadáber de la Reina del Portuñol.

  2. Filosofia não é o que se aprende nos livros de Aristóteles nem em mesa de bar, e sim o que se aprende entre um e outro. Só mesmo Marília e Ju pra dar lição das duas coisas no mesmo blog.
    Boa sorte pra vocês!
    Bjo

  3. Amiga, olha, realmente você me salvou. Naquele dia que eu levei cagada de pombo e nós duas comemos barata, foi seu pensamento positivo que deixou o evento leve.Eu acho o máximo você se amar e ser gata, brotinho e ainda por cima, ser minha amiga. Esse texto aqui, vou te contar, é beleza de vida, é vinhô e eu vou divulgar é agora.

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