Sete dias

No começo, era trevas.

Então ela fez a luz.

E viu que estava só.

Achou por bem criar o amor, e viu que era bom, mas notou que ainda não tinha a quem amar.

Criou então um cenário que a cercasse, com plantas e janelas grandes. Um mundo seguro que a acolhesse em sua falta de um ser amado. Criou o tempo, e sem querer criou a espera. Achou, então, que essa espera era muito suave, e que se quisesse realmente algum mérito em sua felicidade, deveria resistir a um calvário mais penoso.

Então ela criou uma pesada cruz para carregar – seu coração.

E viu que ele era bom, mas doía.

Por mais que aquele fosse seu mundo, sentia que, agora que tinha um coração vivo, de carne e sangue e dor, havia perdido o controle sobre seus próprios limites.

E tendo criado o tempo e o amor sem objeto amado, notou que sem querer havia criado o sofrimento, a espera por nada, a angústia de poder, mas não ter. Tão poderosa, tão impotente. Tão só em seu inanimado universo de janelas e plantas.

Idealizou, então, o objeto do seu amor. Criou virtudes, desejos, imagens, traços. Achou ter inventado uma fonte de infinita felicidade, uma criatura à sua própria imagem, semelhante, complementar, perfeita.

Viu que podia ser bom.

Viu que poderia ser, enfim, feliz.

E, então, viu que havia criado um espelho, apenas.

E o que via era apenas a si mesma, ainda só.

Não havia criado nada além da solidão.

26 de dezembro, 2012

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