Karma

Aquela manhã estava especialmente gostosa. Um solzinho frio de inverno. E estar com ele em um país estrangeiro fazia com que visse tudo com um certo distanciamento que deixava a vida mais leve e despretensiosa. Levantaram por volta das 9h, já acostumados com o fuso, e decidiram que tomariam café na praia e caminhariam sem rumo até que a fome voltasse e, então, pensariam no que almoçar. Tomaram banho juntos. Não queriam se privar da companhia um do outro. Conversavam sobre a noite anterior, sobre o calor que, de fato, não era tão forte como alertavam em sua terra, sobre como poderiam ficar ali pra sempre, sobre como uma terra estrangeira se torna, pouco a pouco, um lar.

Vou pedi-la em casamento hoje, pensava ele. Quero viver com ele aqui para sempre, pensava ela. E, enquanto ele se vestia, ela recolhia os copos e pratos da noite anterior e matava as formigas que passeavam pela pia, pensando que teria que se acostumar a elas se quisesse viver aqui.

Desceram de mãos dadas. Ele com a aliança no bolso. Ela com o coração aberto. Esperaram de mãos dadas o sinal abrir. Trocaram um beijo discreto, mas cheio de cumplicidade. Como era bom estar ali, naquela beira de calçada. Como era bom que somente aquela pessoa entre todas as outras pudesse entender sua língua.

O sinal abre. Tenho uma surpresa pra você, disse ele. Ela não perguntou o que era, e atravessaram a rua se olhando, ela um pouco mais à frente, tentando decifrar aquele entusiasmo masculino, e então um bueiro explode sob seus pés, lançando seu corpo em chamas a quatro metros de altura para cair no chão já desacordado. Ninguém disse a ela, sussurravam os passantes, ninguém disse a ela que aqui, ao sul dos trópicos, aqui se faz e se paga. Ninguém disse a ela que nós, os tropicais, somos uma raça mágica e que ela jamais deveria ter matado aquelas formigas.

30 de junho de 2010

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12 pensamentos sobre “Karma

  1. Sei que é literatura, mas sei, também, que tivemos um papo sobre karma, formigas e o Gita. Esta semana, descobri que um tal de Paramhansa Yogananda entende o Gita, e as formigas, como seres de menor “competência” espiritual. O que vai de encontro com a linha que eu estudo, em que até um fodão como Shiva poderia voltar como formiga pra aprender, sei lá, como viver em comunidade frágil, e não ficar lá, soberano e picão das galáxias.

    Bom, blábláblá espiritual a parte, só uma pergunta: O cara matou formigas também, ou foi só ela? ;p

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