Entre os dentes

Existe um momento na vida quando você acorda bem cedo e, entre pensamentos e lembranças revividas, olha pela janela de casa e se dá conta de que o céu, enfim, é seu.

Você se lembra do que sonhou à noite, procura uma posição confortável na cama. Olha novamente para o céu. Sim, ele ainda é seu. O céu e os pássaros. O canto dos bem-te-vis. O vento nas folhas. E você quase não acredita que está à beira da São Clemente. À beira de carros e cinzas e mentiras e tudo que não faz mais parte de você.

Você se vê então perfeitamente definida em tudo que tem e tudo que é; e desperta enfim em uma manhã qualquer transbordando em sua própria felicidade, uma felicidade furiosa, que grita com força e toma o que é seu; que entra pelos ossos até a alma, que morde e rosna, se faz presente, pulsante, brutal: viva-me ou devoro-te.

Você desperta transmutada em um estado de plenitude que vai às alturas, te leva ao céu ­– seu céu – e te abandona por lá, à mercê de suas mil e uma grandes possibilidades. E você se esforça para respirar o ar que é seu – o ar e a falta dele. Sente seu coração virar fogo, queimar inteiro e se transformar apenas em ausência em brasa. E você precisa fechar os olhos com força, apertar os punhos, segurar com os dentes essa felicidade que é sua; fincar os pés no chão como bandeiras para mostrar ao mundo e principalmente a si mesma que sim, tudo isso é seu. O céu e a terra são seus. Esse é o seu lugar; e esse é o pedaço de vida que te pertence.

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2 pensamentos sobre “Entre os dentes

  1. “O céu e a terra são seus.” – Isso resume tantos significados que seria pretensioso tentar resumir aqui um deles, como sei fosse o que merece maior destaque. Ter os céus e a terra é tão além de pequenas pretensões, de dinheiro, de cargos, de lugares, e, no final, diz respeito à influência em um âmbito que pode tanto ser abrangente quanto particular que, no final, só quem vive, só quem é o protagonista (ou a protagonista) dessa história é quem pode dizer, afinal, do que se trata.
    Mas é fato que está tão além do que esta sociedade prega que, para tantos, é difícil enxergar. Felizes são os que conseguem.

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