Sobre deixar-se enganar

Desde pequena eu sabia que ouvia com a pele. Quando alguém me dizia algo, não era pelos meus ouvidos que a história entrava. Vinha pelo corpo todo, de uma vez só, como um sopro de vento forte. E eu virava a história contada. Assim, não havia somente a dimensão sonora, à parte de mim – tudo sempre me foi sentido até os ossos.

Desde pequena eu também sabia que estar perto de alguém era mais que apenas dividir algum espaço. As pessoas também entram pela pele. Hoje, adulta, eu sei que é assim, que a vida entra pela pele, mas enquanto criança, eu só sabia, não sei como, que aquela senhorinha amiga da família, quase cega e muito doente, ela já estava morta. Sempre esteve, ali no sofá, conversando, me confundindo com meu pai. Estar do lado dela era senti-la diferente de todos, em outra frequência, como vinda de outro tempo. Ela ainda manteve o hábito de nos visitar de surpresa por muitos anos. Morta em todos eles. Quando, de fato, morreu, pensei comigo mesma ante a quase-surpresa das pessoas: ‘ninguém sabia, só eu’.

Não é algo que se ensine. Muito menos que se aprenda.

Raramente me enganei com quem conheci. Eu sempre sei quando a verdade está sendo dita ­– ou omitida. Posso não saber qual é essa verdade, mas sempre, sempre soube quando estava sendo enganada. E me deixava enganar, às vezes mais, às vezes menos, dependendo do caso, do que queria tirar dali. A verdade, como a morte em vida, é algo que também entra pela pele.

Não é algo que se explique. Muito menos que se entenda.

Senti que relacionamentos começariam. Senti que amizades terminariam. Sem saber como nem sob qual pretexto. E sempre acertei. Senti o momento exato em que mentiras começaram a ser ditas, ou quando tudo mudaria para melhor apesar delas. Tudo pelo ar. Não é algo que se conte por aí. Você simplesmente nasce assim, sentindo que as pessoas ao seu lado já estão mortas. Sentindo que o telefone vai tocar, que o dia será fantástico ou que você amanheceu em outro tempo, transformada em alguém diferente do que sempre foi.

E, então, eu olho em volta, tento sintonizar uma sensação de cada vez, mas quase sempre toda essa verdade me invade ao mesmo tempo, essa verdade que vem da existência do moço da loja de bicicletas, do padeiro, de grandes amigos e grandes amores, de pessoas que um dia decepcionarão alguém. Basta esperar. Tudo chega ao mesmo tempo. E dá pra sentir, assim, de maneira abstrata, com imagem, som, cheiros, sensações indefinidas, que esse pedaço da vida que é o hoje traz muito mais do que você precisa; e que escolher suas batalhas é difícil – ainda que necessário – quando toda a artilharia está mirada em você. E, enfim, dá pra entender que tudo isso, tudo que vemos, temos, somos – nós e os outros – tudo é uma coisa só.

Não há fronteira entre dentro e fora.

Não há trégua para quem sente a vida entrar pela carne até os ossos.

O que há é deixar-se ou não enganar, mais ou menos, vez ou outra, e fingir que apenas segue o fluxo da grande multidão, aquela que enxerga só com os olhos, ouve com os ouvidos, acha que é individual e única, e acredita ser independente de todo o milagre que a cerca.

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