Encontros literários às altas horas

Na primeira vez que participei de um clube de leitura, não sabia onde estava me metendo. Tinha acabado de chegar da Espanha e, ansiosa para embarcar de volta o mais rápido possível, arrumei o primeiro emprego que apareceu: vendedora em livraria chique. O dinheiro para voltar à Espanha eu nunca juntei – gastei tudo em livro. Li como nunca. Conheci gente que, como eu, lia e relia; e melhor: conheci até quem escrevia. Mergulhei em um universo único e peculiar, onde eu e meus colegas dávamos gritinhos a cada nova tradução publicada daquele autor fantástico que nem sabia que existíamos. Se bem que, às vezes, até sabia, e volta e meia voltávamos para casa atracados com um exemplar internacional autografado com um sincero “para mi amiga”.

E tinha nosso gerente. Um brucutu, mas um brucutu tão inteligente que a grosseria e o deboche – um tanto engraçados até – estavam automaticamente perdoados. Nosso gerente era da filosofia de que a porta da rua era a serventia da casa. Tendo isso em vista, decidiu que, para aumentar nossos argumentos de venda, teríamos que ler um livro a cada quinze dias e, duas vezes por mês, nos reuniríamos para discutir o que foi lido.

Um livro a cada quinze dias. Vale lembrar que estava no último período da faculdade, e meu projeto final era o lançamento de uma coleção inédita de Kafka. Eu era o próprio Gregor Samsa. Além disso, meu trabalho – e o de meus colegas – era não só vender livros, mas negociar lançamentos, cuidar de acertos de consignação e devolução, tomar cafezinho com editores e autores e nos esquivar de uma ou outra cantada mais inconveniente. E, no meio disso tudo, um livro a cada quinze dias.

Outro detalhe importante era nosso horário final de expediente: uma da manhã. Na nossa primeira reunião, o cansaço era visível. Quem quer começar? Ninguém. Antes ele tivesse perguntado quem quer ir pra casa. Teria sido um sucesso.

O que não esperávamos era que a coisa engrenasse tão depressa. E por quê? Porque éramos um grupo tão heterogêneo que a variação de pontos de vista era riquíssima. Uma menina-flor, um grosseirão piloto de Harley, um gay intelectual afetadíssimo, uma moça pouquíssimo amistosa, uma professora de tango e eu. Aquelas reuniões era verdadeiras sessões de terapia. Abríamos nossos livros e nossos corações. Procurávamos títulos polêmicos só para botar lenha na fogueira. Uma vez levei “O Sagrado e o Profano”, do Eliade, só para ver a cara das pessoas ante todo aquele primitivismo.

Tivemos belíssimas discussões sobre as imagens plásticas de LaChapelle, desvendamos caminhos pelos labirintos de Borges, rimos (nem todas) da vida sexual da mulher feia e lamentamos emocionados a trégua de Benedetti. Descobrimos títulos novos, conseguimos gostar do que não conhecíamos, entendemos melhor um ao outro e, acima de tudo, nos tornamos pessoas um pouco mais tolerantes, leves e criativas. O peso da madrugada, pouco a pouco, deu lugar ao charme que têm os notívagos. Fumando preguiçosamente, estirados como gatos nas poltronas e chaises que cercavam o belo piano de cauda, quebrávamos o pau para saber se García Marquez estava ou não de sacanagem com a nossa cara quando batizou todos os personagens com o mesmo nome. Pura elegância.

Infelizmente, pouco a pouco, a equipe foi mudando, e nosso clube das altas horas chegou ao fim. Criamos laços tão especiais que não teve graça continuar sem os integrantes originais. Agora, passado tanto tempo, a saudade daquelas reuniões começou a apertar, e aqui estou eu. À deriva nesse mar de prosas, cheia de predileções e opiniões literárias, curiosa para descobrir quem virá a bordo comigo e, principalmente, para saber se é dessa vez que alguém me convence a ler um desses malditos romances policiais.

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