Um livro dentro de um livro

Lucio respeita as formigas pela sua vontade de criar seus próprios palácios; em compensação, detesta o oportunismo das baratas, que tomam de assalto qualquer tubulação […] ou amontoado de livros. Mas esse mesmo desprezo o motiva a criá-las e alimentá-las no quarto ao lado, onde joga os livros censurados, pois considera que esse deve ser seu indigno fim”.

Este é um dos trechos de O Último Leitor, segundo título do mexicano David Toscana traduzido no Brasil. O livro conta a jornada do bibliotecário Lúcio, que julga e condena os livros que guarda; e de seu filho Remigio, que se desdobra entre realidade e ficção para descobrir quem é, afinal, a menina morta encontrada no único poço com água no inóspito povoado de Icamole.

Comparado a Paul Auster e Juan Rulfo, Toscana se inspira em Kafka e Cervantes para nos brindar com passagens brilhantes e situações altamente reflexivas. Até onde nossa realidade é nada mais que passagens de alguma história? Tramas se cruzam, brotam uma de dentro da outra e, no fim, terminam juntas, como uma só. No livro, Remigio e seu pai usam a ficção para construir pontes e enfrentar a realidade: desvendar que mistério guarda o corpo de Babette.

Um livro dentro de um livro, que ganha mais um integrante, nós mesmos, leitores, personagens e, em parte, coautores. Uma leitura renovadora, perfeita para lavar a alma em pleno deserto mexicano.

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